quarta-feira, 13 de julho de 2011
A fuga das lembranças
Engraçado. Nesta fase da minha vida não tenho muitas lembranças dos amigos, das conversas, das brincadeiras. Da infância e das boas lembranças algumas poucas, das ruins muitas. Gostava de brincar em beira de rios, subir em árvores, fazer cabanas. Talvez um dia fale mais sobre elas. Não é fácil lembrar de coisas ruins. Eu era um garoto travesso e arteiro como dizia mamãe. Papai quase nunca estava em casa - era vendedor viajante e capataz de fazenda - e quando estava gostava de rinha de galo, dos botecos e dos amigos pelos quais era muito considerado o Índio Véio como era conhecido. Eu morria de vontade de ir com ele mas ele nunca me levou. Na verdade nunca me pegou nem no colo e quando eu aprontava aquelas coisas de criança, ele pegava um balaústre, sabe aquelas ripas de madeira que se usa geralmente para fazer cercas, com um corte diagonal em uma das extremidades formando uma ponta? Então, era assim que ele me corrigia. Ficava horas de molho em uma bacia com água e sal para tirar as marcas e os vergões , não sei de onde mamãe tirou essa receita ou talvez ela nunca tenha apanhado assim. Só sei que doía muito. Tinha também o lado bom do papai. Ele fazia questão de dizer às pessoas que eu era um menino muito inteligente e de alguma forma isso compensava os maus tratos, acho. Gostava também do modo como se vestia, estilo boiadeiro, chapéu calças jeans surradas (não, ele não batia nas calças) laço e chicote. Não era só um estilo, ele era mesmo um boiadeiro. Nesse tempo ele era capataz de uma grande fazenda.
A ditadura
Verão de 1974. Viviámos ainda debaixo dos ventos tempestuosos da ditadura militar e certas coisas não podíamos fazer. No máximo podíamos pensar. Havia uma espécie de pressentimento no ar. Uma expressão estranha no semblante de todas as pessoas revelava a opressão e o temor dominantes na vida das pessoas do lugar. Algo ruim estava acontecendo. A liberdade, me parecia, perdera o seu brilho.
As conversas antes esfuziantes e alegres pelas esquinas e pelas ruas tornaram-se em mímicas silenciosas, quase sussurradas pelos becos e vielas da pequenina cidade onde eu crescia. Todos temiam algo que não sabíamos exatamente o que era.
Eu era apenas um adolescente, e como todos da minha geração, privado do direito a informação e ao conhecimento. Alienação é a palavra que cabe aqui. Um crime contra a dignidade humana. Não fossem os geraldos vandrés da vida, os caetanos, chicos e tantos outros heróis anônimos, tantos presos ou exilados, outros tantos mortos nos tempos da ditadura, o vazio e as marcas em minha vida seriam de proporções catastróficas. É como se eu tivesse queimado etapas ou saltado os degraus que constroem a alma e a escada da maturidade. Bem, não seria a primeira vez que as circunstâncias da vida conspiraravam contra mim.
Um rio belo e sinuoso entrecortava a vida de todos na cidadezinha. Um cheiro forte pairava no ar, típico da fábrica de papel instalada do outro lado do rio. Trabalhei lá como office-boy nesse ano. O bondinho era uma gostosa aventura diária pela manhã e ao entardecer.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Dois anos depois
Não me parecia muito tempo. Talvez eu nem tivesse a percepção da rapidez com que a vida passa. Dezenas de livros, como as aventuras instigantes de " O velho e o mar" de Ernest Hemingway, o encanto de "Longe é um lugar que não existe" de Richard Bach, "O Pequeno Príncipe" e " Terra dos Homens" de Saint-Exupéry, Carlos Castanheda e sua literatura xamânica, Dom Juan e suas feitiçarias, entre tantos outros, já faziam parte do meu imaginário. Experiências incomuns e assustadoras habitavam minhas memórias mais recentes, como um rio caudaloso deslizando sobre o leito esguio. Eu podia sentir. Havia um vasto oceano mais a frente onde desaguariam os anos seguintes da minha trajetória.Só não sabia o quão obscuros seriam. A adrenalina da existência não parava de irrigar minha alma. A intensidade das descobertas sugeriam um futuro de riqueza espiritual com a qual em jamais havia sonhado. Mas estava acontecendo. Era real.
Um dos primeiros livros que li entre doze e quatorze anos aguçou minha sede por aventuras e pelo desconhecido. As experiências de um feiticeiro mexicano com mescalina, droga extraída do cacto conhecido como peiote e usada em rituais religiosos, mexeu com minha curiosidade e acelerou minha imaginação.
Experimentar aquilo seria, definitivamente, o auge da minha busca. Uma força estranha me atraía para dentro do universo da magia. Havia alguma coisa do outro lado da vida e eu queria experimentar.
Um dos primeiros livros que li entre doze e quatorze anos aguçou minha sede por aventuras e pelo desconhecido. As experiências de um feiticeiro mexicano com mescalina, droga extraída do cacto conhecido como peiote e usada em rituais religiosos, mexeu com minha curiosidade e acelerou minha imaginação.
Experimentar aquilo seria, definitivamente, o auge da minha busca. Uma força estranha me atraía para dentro do universo da magia. Havia alguma coisa do outro lado da vida e eu queria experimentar.
Um estranho poder
Como então observar além do que os olhos podem ver? Um mergulho na feitiçaria e na magia, talvez fosse um bom começo. Quem sabe eu encontraria lá as respostas que eu tanto procurava. A sede por aventuras e pelo sobrenatural estava apenas começando e a fome de conhecimento somadas as experiências que eu acabava de experimentar me fizeram cair de cabeça na longa estrada da busca espiritual. Eu precisava encontrar a verdade. Precisava estabelecer a minha verdade.
Um estranho poder começõu a se manifestar. Inicialmente eu não sabia o que estava acontecendo. Com o passar do tempo e descobri que havia uma força sobrenatural em meu olhar. Uma força como que subjugava pessoas e circunstâncias. Não se tratava de um olhar simplesmente sedutor, era mais do que isso. Um olhar quase fatal, que aprisionava os acontecimentos como que se eu pudesse manipular os acontecimentos à minha volta. A sensação que eu tinha era como que portas se abrindo nas regiões espirituais da minha vida. Era uma adolescência diferente, e marcada por momentos as vezes estranhos, difíceis e dolorosos, mas ao mesmo tempo novo, forte e fascinante. O poder me fazia sentir coisas incríveis.
O Observador
Lembro-me bem. Era um belo quadro pintado a óleo. Não me recordo quem era o artista, mas era realmenmte uma bela pintura que retratava um imenso bosque, quase uma floresta e bem ao centro, na paisagem, havia uma grande árvore cuja copa se elevava muito além das demais, destacando-a não somente pela altura mas pela presença forte e esguia, de um colorido esverdeado intenso e galhada singular. Uma estranha árvore em meio a centenas de milhares de outras. Comoi se fosse um teste, alguém me desafiava a enxergar algo oculto na paisagem. Numa fração de segundos, meus olhos percorreram o quadro e uma silhueta humana, parte do tronco e cabeça, se revelava pequenina oculta aos pés da grande árvore. Foi surpreendente a rapidez com que percebi a figura humana. Alguém disse que eu havia sido o mais rápido entre todos os que passaram por aquele teste. Que orgulho senti de mim mesmo.
Aumentar a capacidade de observação torno-se quase uma obsessão.
Começei uma intensa busca de situações, desafios, testes e tantas outras coisas com o único propósito de tornar-me um hábil observador.
Com o passar dos anos, o senso de observação tornou-se parte de mim de tal maneira que observar a vida em todos os seus aspectos e nuances fez de mim um especialista. Eu precisava experimentar a vida de todas as maneiras possíveis.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Encontro misterioso
Certas coisas na vida são cercadas de mistérios. Aos doze anos, mistério é um conceito ainda meio vago e meio assustador,como se fosse algo em construção. Os antigos, um tanto supersticiosos, faziam aquela cara de medo que nos amedrontava também, mas mesmo assim, o turbulento rio da aventura e da curiosidade pelo sobrenatural nascia nas entranhas profundas do meu ser. Minha alma navegava por suas águas escuras e revoltas.
No dia seguinte ao sonho do precipício, alguém que até hoje permanece envolto em mistério, me presenteou com um livro cujo introdução descrevia em detalhes a mesma cena que sonhei. Fiquei arrepiado. Não era possível que isto estivesse acontecendo. Li e reli não sei quantas vezes. Era simplesmente inacreditável. O intrigante é que eu nunca soube quem me deu o livro e agora eu estava totalmente atordoado, embasbacado. Minha pulsação devia estar a mil. Meu coração parecia que ia explodir. Era um misto de alegria, incredulidade, medo e sei mais lá o que. É claro que devorei o livro em pouquíssimos dias. Um novo mundo, extraordinário, abria suas portas para mim. A Iniciação, pensava eu, era um privilégio para poucos.
Um lugar sombrio. Quatro anos antes
Talvez não fosse um lugar propício para um garoto de oito anos brincar. Mas haviam outras crianças ali. Havia até um moço grande que devia ter uns trinta anos. Era o Júlio. Nós o conhecíamos bem e nos sentiamos seguros ali. Gostávamos de brincar de índio, de subir em árvores, de esconde-esconde. Coisas de crianças. Até quando ele me pegou no colo parecia brincadeira. Mas então ele tirou a minha roupa. Eu não sabia o que estava acontecendo. Vi quando ele abaixou suas calças e... Não quero mais falar sobre isso.
Sentia muita dor. Aquele lugar sombrio agora parecia estar dentro de mim. Fui para casa cabisbaixo. Chorava por dentro e não queria que ninguém percebesse. Eu só tinha oito anos.
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